Onde vivem as pulsões e seus destinos: uma reflexão.
- Elisa Cintra

- 7 de jul. de 2022
- 19 min de leitura

Publicado no livro Relações e objeto na psicanálise: ontem e hoje.
(org) Leopoldo Fulgencio e Decio Gurfinkel. Ed. Blucher, 2022.
Está é uma versão original, acho que a versão desse texto no livro está mais elaborada.
As reflexões desse artigo surgiram a partir do convite do Departamento de Psicanálise do Sedes para participar do evento “Relações e Objeto na Psicanálise: Fundamentos e Clínica”, em agosto de 2018. O interesse que uniu diversos psicanalistas nesse encontro, foi longamente tratado no livro de Décio Gurfinkel Relações de Objeto, no qual ele adota o princípio de fazer uma análise das ideias psicanalíticas dentro do seu contexto histórico. De um lado considera o modelo pulsional, do pensamento freudiano, e do outro lado, procura discernir como se formou o pensamento das relações de objeto em Balint, Fairbairn, Winnicott e alguns outros autores. Apesar de não ter se detido na obra de Klein, considera o sistema kleiniano uma ponte de transição entre Freud e os autores da relação de objeto. Aprendi muito com o livro de Decio Gurfinkel. Quero deixar aqui registrados um elogio e uma crítica. Penso que o trabalho sobre a historicidade das teorias e dos modelos me parece uma forma muito inteligente de dissolver a tendência a colocar qualquer ideia como absoluta, revolucionária, ou mais verdadeira que as outras. Isto nos ajuda a pensar, desde suas raízes, a lenta elaboração das vivências clínicas e o desdobramento histórico das ideias, tornando-se assim um bom antídoto contra as doenças infantis do pensamento, na feliz expressão de Mezan.
A crítica: vou em seguida focalizar algumas ideias de Klein que considero importantes para a construção deste fio histórico, e que estão ausentes do livro do Décio; talvez seja este o único defeito desse belo trabalho. Meu desejo é dar voz à sensação de que faltou falar da importância da obra de Klein como primeira autora que chamou a atenção para as relações de objeto. A partir de várias conversas com Décio pude perceber que a ausência de um capítulo sobre Klein em seu livro ainda pesava para ele, apesar de suas justificativas para não tê-la incluído.
Sua justificativa para ter deixado Klein fora do livro baseou-se na consideração de que essa autora trata mais de relações objetais intrapsíquicas e Décio queria falar sobretudo dos autores que tratam das relações de objeto em sua dimensão intersubjetiva. Entendo, mas quero dizer que há em Melanie Klein um insistente olhar para a dimensão da intersubjetividade. Para captar bem esse aspecto é preciso pensar na sua exímia capacidade de ler e sonhar as obras de Freud, Abraham e Ferenczi, considerando de modo privilegiado os anos de 1905 até 1926, isto é, quando estavam todos imersos nos primeiros vinte e seis anos da teoria psicanalítica. Estão aí os germes da teoria das relações de objeto e correspondem também à entrada de Klein no universo psicanalítico. Porém, além de exímia leitora, ela se autorizou a criar, a inventar e a transformar o que estava lendo, tratando essa matéria prima teórica com bastante liberdade, sem cerimônia, como se fosse um meio maleável, um espaço transicional para brincar e sonhar.
Façamos, pois, um esforço de pensar dentro do enquadramento histórico. Klein abriu caminho para o modelo das relações de objeto, por ter realizado transformações na própria natureza do conceito de pulsão, através da noção de fantasia inconsciente. Se eu tivesse hoje em dia um aluno da pós interessado em história da psicanálise, sobretudo em localizar os lugares da obra de Freud e de outros autores onde estaria nascendo o pensamento das relações de objeto, eu diria a ele o seguinte: vamos ler e reler cuidadosamente o livro do Décio sobre relações de objeto, o livro do Mezan, O Tronco e os Ramos e mergulhar na obra de Ferenczi, sem deixar de lado a década de dez, prosseguindo até a publicação de Thalassa. Íamos ler também o livro As Diversas Faces do Cuidar e o novo livro que está para ser lançado, Adoecimentos psíquicos e estratégias de cura, de LC Figueiredo e Nelson Coelho Jr.
E, é claro que iríamos ler, antes de mais nada, Os Três Ensaios sobre a sexualidade de 1905 como o ponto mais alto de construção da noção de pulsão sexual, depois iríamos acompanhar o surgimento das novas complexidades da natureza humana, que levaram Freud a introduzir o conceito de Princípio de Realidade em 1911, que já realiza mudanças na primeira noção de prazer. E depois, continuar com a ideia de narcisismo em 1914, a segunda teoria da angústia em 1926 e a segunda tópica em 1923. Durante esses anos de 1911 a 1926 foi aumentando a importância do objeto na economia libidinal e também da ideia da identificação, e então leríamos também, com extrema atenção, Luto e Melancolia (1917) e o texto de 1921, Psicologia das Massas. Esses são os principais pontos, se quisermos traçar o mapa na obra freudiana onde estavam nascendo os brotos de um futuro pensamento das relações de objeto. Isto sem mencionar aqui qual seria o nosso percurso através da obra de Melanie Klein, Abraham, Ferenczi e Balint. E leríamos ainda o texto de Ogden Uma Nova Leitura das Origens das Relações de Objeto (2001) para pensar bem Luto e Melancolia e a questão da identificação. Ler e sonhar. Uma outra ideia seria tomar os textos sobre identificação projetiva de Ogden (1978 a, b, 1979, 1980, 1981, 1982 b, 1984, 1985, 1986, 1988, 1989 a) e o seu livro Sujeitos da Psicanálise (1994).
Agora, confesso a vocês que todo este planejamento, assim bem organizadinho (menos os textos de Ogden) me foi sendo inspirado ao ler o trabalho de Décio! Mas eu diria ao aluno, agora que já nos instruímos com esses autores, vamos tomar o tema da fantasia inconsciente em Klein e traçar a forma como ela deriva suas ideias sobretudo dos textos de Ferenczi da década de dez.... E assim comecei a sonhar um próximo mestrado ou doutorado, incluindo os novos autores-leitores da obra de Ferenczi, obra esta da qual não cessamos de extrair inspirações para pensar a psicanálise contemporânea.
Bem, chega de sonho, voltemos ao nosso encontro de hoje. Há um debate acerca da alternativa: busca de prazer e busca do objeto. Qual é a noção de prazer que está presente em Freud, em seus primeiros escritos? O principio do prazer é aquele que conduz ao esvaziamento da tensão até o nível zero, ou pelo menos até um nível constante, homeostático. O próprio Freud se dá conta de que esta noção econômica de prazer que envolve apenas acalmar a excitação é problemática e exige reformulações. Buscar o esvaziamento da tensão através da experiência de satisfação leva o sujeito a encontrar o objeto, fonte de novas e inesperadas tensões. Podemos dizer que o pensamento econômico em Freud nunca deixa de ser importante e pensar o aparelho psíquico tendo como função descarregar as excitações persiste em sua obra até o fim, entretanto foi quando começou a pensar nos aspectos dinâmicos e qualitativos que começou a emergir em sua obra a importância dos cuidadores desde o início da infância e a questão da busca do objeto.
Qual seria a contribuição de Klein com relação à polêmica: a pulsão vai em busca do prazer ou da relação com o objeto? Ela estaria alinhada junto a Freud nos autores que privilegiam a pulsão e o intrapsíquico? Ou junto a Ferenczi e Winnicott, autores que privilegiam o objeto e o vértice intersubjetivo? Creio que ela pode ser considerada como pertencendo aos dois grupos, não apenas como uma ponte. Há pelo menos três vias para demonstrar a importância do objeto e do vértice intersubjetivo no pensamento kleiniano: a fantasia inconsciente, a identificação projetiva e a noção de continência que, por sua vez se abre para a rêverie e a empatia.
A fantasia inconsciente
Disse há pouco que Klein abriu caminho para o modelo das relações de objeto, por ter realizado transformações na própria natureza do conceito de pulsão, através da noção de fantasia inconsciente. Para começar eu diria que as fantasias inconscientes são representantes psíquicos das pulsões. Melanie Klein amplia esta ideia ao dizer que todos os processos físicos e psíquicos se configuram através das fantasias inconscientes.
“Nada do que ocorre no corpo e na mente deixa de estar de alguma forma associado a esta atividade inconsciente e criativa do fantasiar”. (Figueiredo, 2009, p. 25). Isto pode ser associado à ideia de uma imaginação radical, que encontramos em Castoriadis (1975). O filósofo acreditava que a psyché é primordialmente uma capacidade de fantasmatização radical, assinalando o caráter produtivo desta atividade que dá sentido e valor afetivo a tudo que se faz, a tudo que nos toca, a tudo que acontece. Esta visão é diferente da ideia de fantasia em Freud, na medida em que este último tende a assinalar o aspecto de distorção e falseamento da realidade produzido pelo fantasiar e Castoriadis quer sublinhar a capacidade produtiva da imaginação, da mesma forma que, bem antes dele, Ferenczi e Klein tinham feito. Mais tarde, encontraremos em Winnicott a noção de uma elaboração imaginativa do corpo e a criatividade primária que seriam herdeiras da noção de fantasia inconsciente em Klein. A ideia de um constante fantasiar inconsciente da experiência vivida é uma ideia tão germinativa – que funcionou como uma placenta nutridora capaz de gerar em todos os autores de sua posteridade um convite a um trabalho de elaboração imaginativa das próprias teorias já existentes.
Mas, para além da sua fecundidade, o que desejo salientar é esta propriedade da fantasia inconsciente de circular entre corpo e psique manifestando o poder imaginativo do corpo (Figueiredo, 2009, p. 26) na direção dos objetos, e em resposta aos objetos. Um exemplo disto seria mostrar que: “... há uma linha contínua que vai do “agarrar” de um bebê ou de um adulto até o “compreender” mais abstrato do filósofo e do cientista”. (Figueiredo, 2009, p. 26).
Klein irá trazer esta concepção de que uma interpretação fará este mesmo percurso nos dois sentidos, da psique ao corpo, do corpo à psique, considerando que o analista realiza uma escuta com o seu corpo inteiro, com suas memórias corporais e usando toda a sua capacidade metafórica e a sua capacidade de se manter em reserva; o seu poder de palavra e o seu poder de silêncio. E então convida o paciente a entrar nesse jogo paradoxal e complexo que é a associação livre. Livre justamente para circular prá lá e prá cá, entre corpo e psique, dentro e fora, ontem e hoje. Na verdade, isto também inclui a circulação entre pulsão e objeto.
Klein se dá conta de que há uma potencialidade psíquica no corpo – o corpo quer dizer algo e o corpo fala. De um lado há esse desejo do corpo de dizer; ele nunca é algo apenas fisiológico e anatômico, algo em si mesmo, que nos aprisiona em um mundo silencioso e opaco, embora às vezes chegue a ficar um corpo totalmente silenciado, ou completamente presente, quando se está muito doente.
Por outro lado, mesmo no mais elevado insight há algo de corporal, algo relacionado à boca, à pele, aos músculos, ao corpo que se movimenta, aos ruídos e aos gemidos, aos gestos que estão tentando virar palavra. Por exemplo, quando devoramos um livro, ou com-preendemos uma expressão, acontece algo semelhante ao gesto infantil de agarrar com as mãos (a-preender) algo que se deseja conhecer.
O próprio corpo, portanto, quer dizer algo, quer se expressar, quer ser visto e ouvido. Desde o mais remoto princípio da vida há um direcionamento para fora, desde os prazeres auto-eróticos, em direção a alguém que possa me dar alguma resposta a meus enigmas, estamos sempre à busca de um outro, ao mesmo tempo semelhante e diferente, meu nebenmensh. Klein reconhece esse movimento de busca do objeto, no movimento de sucessivas introjeções e introjeções, na constituição do sujeito psíquico, um processo intersubjetivo, desde o princípio. Isso fica claro em diversos pontos de sua obra, por exemplo, no texto de 1952:
(aqui colocar a citação de Klein de 1952 que o Edu me lembrou).
As fantasias inconscientes se enraízam no corpo. Ferenczi e Klein compreenderam que há sempre um fluxo de duas mãos do corpo ao outro e deste para o corpo, que flui incessantemente em tudo que fazemos e dizemos, a não ser quando o fluxo é interrompido pela dor e pelo trauma, gerando a doença.
Freud falava do prazer de órgão, de auto-erotismo, e mostrava como qualquer situação humana podia gerar algum prazer sexual, até o movimento de um trem quando somos passivamente embalados pode gerar uma sensação de prazer – o prazer de órgão. Prazer este que depois vamos re-encontrar transformado em expressões que dão voz ao sensorial como: à flor da pele, o chamado do sangue, uma escrita visceral. Há na teoria freudiana, em Melanie Klein e outros psicanalistas este movimento constante do corpo à palavra e desta àquele, do sensório ao poético.
No início da vida, Freud falava de matéria psíquica bruta; a própria noção de realidade psíquica era algo concreto para Freud, o me leva a crer que para o fundador da psicanálise tudo começa no corpo.
Hoje ninguém discordaria que o corpo é nossa casa mais intima e animal, que pode provocar muita dor, quando o excesso traumático e a onipotência fazem explodir nossos frágeis limites e percebemos que somos vulneráveis e transitórios.
Se tudo se enraíza no corpo, o eu é antes de tudo um eu corporal, dirá Freud. A matriz de todos os significados está nas situações originárias de prazer. De início a participação do objeto na experiência de satisfação é ignorada pelo bebê. A pulsão busca o prazer e encontra o objeto e o significado do prazer. Penso que Freud, Klein e Ferenczi diriam que nesse momento a libido se objetaliza e se instaura, no mesmo movimento, a busca do objeto. Parece haver uma prioridade temporal da busca de prazer sobre a busca do objeto, do sujeito fechado em seu auto-erotismo sobre o sujeito que busca o objeto e também prioridade do sensorial sobre o campo dos sentidos e da palavra. A grande contribuição de Klein foi dialetizar esses polos e falar de fantasias criadoras de pontes e mediações entre eu e outro, corpo e palavra, que tornam irrelevante pensar se antes vem o ovo ou a galinha. O mérito da noção de fantasia inconsciente é dela, mas a sua inspiração nasce de seu amor às intuições ferenczianas.
O que acho notável é ver que Ferenczi, ele próprio, já falava na existência em vários níveis de sensorialidade e de significação que se articulam, que formam linguagens mistas e infiltradas de sensações, mais do que séries de puros significantes. O simbólico e o verbal de um adulto resultaria então de uma combinação impura de várias origens e temporalidades. Nas primeiras páginas de O Diário Clinico Ferenczi faz referência a esta forma de matéria psíquica primordial.
“O ser humano é um organismo equipado com órgãos para o desempenho específico de certas funções psíquicas essenciais (atividades do sistema nervoso e do intelecto). Em momentos de grande provação, quando o sistema psíquico parece ser incapaz de dar uma resposta adequada ou quando certos órgãos e funções específicas tenham sido destruídos são despertadas forças psíquicas primárias e serão estas que vão ultrapassar a destruição. Nos momentos em que o sistema psíquico falha o corpo começa a pensar. (Ferenczi, 1932, p. 5-6)”
Freud já havia falado de fantasia inconsciente, mas há algo novo na noção kleiniana.
Será que essa novidade é mesmo um sinal de que Klein já pensava no registro da intersubjetividade? Se voltarmos por um instante ao texto de Susan Isaacs, A Natureza e a Função da Fantasia (1952) veremos como as fobias alimentares, as explosões de mau humor, os sintomas histéricos, as dores de cabeça, enfim todas as alterações psicossomáticas, e ainda a postura corporal, o tom de voz, as atitudes frente ao tempo e à pontualidade, tudo isto possui uma determinação inconsciente através de uma fantasia inconsciente que pode ser parcialmente vislumbrada pelo analista e pelo paciente. “Tudo que vindo do corpo se projeta para o campo do sentido e, vindo da mente, se retroprojeta no corpo”. (Figueiredo, 2009, p. 28). A fantasia inconsciente revela assim a produtividade da unidade somato-psíquica, a origem da vida psico-somática, “com seus valores afetivos e significados profundos”. (Figueiredo, 2009, p. 28).
O mais importante, entretanto, é que as fantasias inconscientes estabelecem a mediação entre mundo externo e mundo interno, entre as esferas da realidade psíquica e da realidade social. As experiências com os objetos externos são enquadradas assim pela fantasia que as antecipa e continuamente as re-significa, après coup. “As fantasias inconscientes são pensamentos em estado embrionário e sem elas nenhum pensamento e [nenhum aprendizado] pode[m] se desenvolver ”(Figueiredo, 2009, p. 28). Só aprendemos quando podemos lançar uma antecipação de sentido às relações entre as coisas, sensações, pessoas, palavras e ideias.
Mas o que aconteceu, na posterioridade da obra de Klein com esta função de mediação da fantasia inconsciente, que é claramente intersubjetiva?
A ênfase dada por esta autora à descrição do mundo interno de seus pacientes mais doentes obscureceu a ideia de que uma das principais funções da fantasia reside em sua capacidade de mediação entre os objetos internos e externos. Os objetos internos dentro de uma concepção intrapsíquica fechada parecem enfatizar uma quase total independência do ambiente social circundante; que é o que acontece nos casos patológicos mais graves, no caso dos delírios e das alucinações. Atendendo crianças muito doentes, psicóticos e borderlines, Klein parece, em muitos momentos confinar a fantasia inconsciente a um sistema fechado, intrapsíquico. Entretanto, hoje sabemos que mesmo nos pacientes fechados sobre si mesmo e nos traumas, o ambiente teve a sua participação maior ou menor, e o próprio fechamento dá testemunho da violência do ambiente. Uma das estratégias terapêuticas é, então, desconstruir o sistema solipsista, para encontrar os traços da violência do ambiente primário.
Na verdade, as fantasias inconscientes que, em sua época Klein localizava dentro do aparelho psíquico teriam que ser re-localizadas entre as esferas da realidade psíquica e da realidade social. Isto seria mais preciso, apesar de não ter sido dito por Klein, com todas as letras. Reconheço que somos nós, nos dias de hoje, que podemos ver isto, com o privilégio da distância temporal.
Podemos então afirmar que esta condição transicional das fantasias inconscientes foi a sua grande contribuição para os futuros leitores e para a futura prática clínica. O poder imaginativo do corpo e da fantasia foi a condição de possibilidade teórica que levou Winnicott a criar a noção de objetos e fenômenos transicionais e também a sua ideia de criatividade primária. Isto aconteceu aliado, é claro, a todas as suas outras raras qualidades de observador analítico do brincar.
A teoria (e as fantasias que lhe são subjacentes) deveria ter sempre essa função de antecipar sentidos possíveis, de nos fazer transitar entre diferentes paisagens, de nos lançar ao futuro e aos novos sentidos que ainda não puderam se configurar. As teorias são pequenos delírios que deveriam se abrir para nos abrigar por um tempo, enquanto gestamos novas rêveries, e depois deveríamos nos livrar delas e respirar aliviados. Winnicott sabia muito bem como lançar-se a esse jogo. Considero, pois, que a fantasia inconsciente seria o fenômeno transicional primordial, uma espécie de matriz ou concepção originária da teoria winnicottiana, pois é Winnicott, ele próprio, quem reconhece que “...a força dos elementos transicionais deve-se, em primeira instância, à força dos objetos subjetivos, vale dizer, de um objeto criado pelo bebê, a partir de suas experiências com o ambiente”. (Figueiredo, 2009, p. 32).
Identificação projetiva
Voltemos ao livro de Décio e a uma breve recapitulação. Concordo que os teóricos das relações de objeto predominantemente intersubjetivas são Ferenczi, Fairbairn, Balint e Winnicott. Melanie Klein falou muito das relações de objeto intrapsíquicas criadoras de sistemas fechados, encontrados nas patologias mais graves. Mas na verdade ela nunca desprezou a importância dos objetos externos na saúde e na doença. Em estágios arcaicos do desenvolvimento os objetos externos estão tão sobrecarregados de projeções – justamente das pulsões e dos afetos, que acabam dando pouco espaço para serem percebidos e usufruídos de maneira mais independente das projeções maciças. O que ela percebeu de forma diferente de Freud é que as pulsões são sempre pilotadas por identificações: em toda projeção, algo do eu se fragmenta e vai para fora, dirigindo o movimento pulsional para pousar nos objetos.
O processo de fragmentação do eu permanece inconsciente e a parte não reconhecida do eu acaba sendo atribuída ao objeto, ou seja, a pulsão sempre arrasta consigo uma porção do eu que também é projetada. É por esta razão que todo movimento projetivo leva a um estado de confusão entre o eu e o outro e a uma potencial reconfiguração de si, através das outras pessoas. Ora, isto nos coloca no cerne da invenção kleiniana da identificação projetiva, que anunciei acima como o segundo argumento que torna impossível entender seu pensamento fora da perspectiva intersubjetiva.
Uma das formas de explicar a vivência da identificação projetiva está presente em um texto de 1955 em que discute um romance de Julien Green, If I were you. (Se eu fosse você). O personagem principal que sente imensa inveja das pessoas vende a alma ao diabo em troca do poder de deixar o seu corpo e se apoderar do corpo da pessoa de quem ele sente inveja naquele momento. Melanie Klein descreve a angústia desta fantasia de habitar a outra pessoa e o desejo de não perder completamente a própria identidade. O resultado é um esgotamento muito grande e um sentimento dolorido de que o outro se apoderou de seus próprios aspectos que ele não queria perder, aliado ao medo de sentir que não conseguirá recuperar o seu próprio sentimento de ser alguém.
Os escritos que foram gerados a partir da noção de identificação projetiva, formulada por Klein em 1946 são incontáveis e em cada um deles se poderá vislumbrar algo novo para a compreensão da natureza intersubjetiva do psiquismo, e do “descentramento dialético do sujeito no espaço psíquico” em Melanie Klein (Ogden, 1994).
Continência materna e analítica: rêverie e empatia.
Uma das consequências importantes da teoria da identificação projetiva foi perceber a importância da continência ao mundo interno do outro em seus aspectos mais primitivos, no caso da função materna e sobretudo necessária à função analítica.
Ogden (1994) é um dos autores que discorre amplamente sobre a dimensão intersubjetiva implícita nesse mecanismo:
“...desde os estágios iniciais da vida, há um processo psíquico por intermédio do qual, aspectos do self não são simplesmente projetados sobre a representação psíquica do objeto (como na projeção), mas “para dentro” do objeto, de modo que se tenha a sensação de controlar o objeto desde dentro e aquele que projeta vivencie o objeto como parte dele mesmo” (Ogden, 1994, p. 38).
O desejo de controlar o outro decorre da dificuldade de lidar com a autonomia do outro, que se faz presente ou ausente de forma imprevisível, com o desejo de conhecê-lo e de decifrar o enigma de seu desejo. Foi Bion (1952, 1962ª, 1963) quem sublinhou a dimensão intersubjetiva da identificação projetiva, mostrando que essa forma de se relacionar cria um espaço intersubjetivo entre sujeito e objeto. Ele descreve de que forma o bebê desenvolve uma capacidade de viver seus próprios pensamentos e emoções através da leitura que sua mãe vai fazendo deles. A continência materna para as angústias e outras emoções do bebê já era uma aptidão materna (e também do analista) amplamente reconhecida por Klein. Trata-se de uma receptividade para acolher, compreender e nomear os aspectos mais indigestos da vida psíquica do bebê e do paciente. Bion (1962ª) usou o termo rêverie para nomear a função materna de continência:
“a identificação projetiva torna possível para ele (o bebê) investigar seus próprios sentimentos numa personalidade forte o suficiente para contê-los. A recusa do uso desse mecanismo quer pela negativa da mãe de servir de depósito para os sentimentos do bebê, quer pelo ódio e inveja do paciente que não pode permitir que a mãe exerça esta função, leva à destruição do vínculo entre o bebê e o seio, e consequentemente, a uma perturbação severa do impulso de curiosidade do qual depende toda a aprendizagem.”(Bion, 1959, p. 314).
Lendo os casos clínicos de Klein é fácil ver como ela dá importância à dimensão intersubjetiva: as falhas reais da mãe, por exemplo no caso Dick são muito bem apontadas por ela e também a importância do aparecimento da mãe “real” para abrandar as angústias e culpas depressivas., Melanie Klein apontava muito bem o papel da mãe – positivo para os processos de saúde e patologizante, na construção dos diversos tipos de adoecimento. No curso do desenvolvimento, os processos de introjeção e projeção vão se intrincando a tal ponto que vai ficando difícil estabelecer o que vem de dentro e o que vem de fora na constituição da realidade psíquica e da realidade exterior.
No funcionamento esquizo-paranóide, as angústias e as defesas vão se intensificando a tal ponto que o próprio circuito do sofrimento passa a criar um sistema que vai se fechando sobre si mesmo e que vai se autonomizando, ficando então pouco suscetível a ser desfeito por algum aporte dos objetos externos. A “realidade histórica” do paciente acaba sendo construída de forma maciça a partir da realidade psíquica. O trabalho analítico foi então sendo pensado por ela no sentido de abrir esses “circuitos fechados autoengendrados”, que criam o que ela denomina de ciclos maus. Os maus objetos internos atraem a si todos os objetos externos existentes e não há mais possibilidade de um “teste de realidade”, pois as percepções foram sequestradas pela fantasia.
As defesas primitivas levam a um tal nível de fragmentação do eu que toda a capacidade de observar, pensar e sentir sofre as consequências disso, entrando em um estado de fragmentação. É como se o aparelho psíquico ficasse esmigalhado e seria então através desse instrumento danificado que o paciente acaba constituindo a realidade externa.
No pensamento kleiniano, não se trata, portanto, de negar a importância do ambiente e a dimensão intersubjetiva das relações, mas de perceber que em algumas situações esta dimensão está quebrada, silenciada, ou gritando demais para que se possa ouvir qualquer coisa. Trata-se de dizer algo trágico: que quanto mais doente está uma pessoa, menos pode aproveitar a dimensão intersubjetiva de trocas. Se tudo que vem de fora é ameaçador e persecutório, fica difícil aproveitar o aporte de uma relação analítica, que poderia fazer um trabalho do negativo sobre a fantasia delirante. Nesses casos, não se atinge a possibilidade de usar o objeto, tal como pensado por Winnicott. Felizmente sempre surgiram analistas com a paciência de acompanhar um paciente até o ponto em que possa entrar no processo de livre associação e fazer uso da situação analítica e do analista.
Para encerrar, façamos uma breve consideração da questão que tem nos ocupado nesse encontro. Fairbairn considerava que a teoria freudiana da libido sofria de um hedonismo generalizado, ao afirmar que os humanos são guiados pela finalidade primária de busca de prazer, descarga das pulsões e alívio da excitação corporal. O objeto só entraria mais tarde, como um mero instrumento na obtenção do prazer. Fairbairn achava este modelo equivocado, pois acreditava que os humanos são, desde o início, buscadores de objetos.
Do outro lado, Balint critica Fairbairn por ter ignorado a busca de prazer como um princípio organizador dos processos físicos e psíquicos. Propõe então três possibilidades de lidar com esse impasse entre busca de prazer e busca de objeto. A primeira seria pensar que ambos coexistem como princípios ordenadores da natureza humana. A segunda seria pensar que em algum estágio do desenvolvimento, a busca inicial do prazer seria transformada em busca do objeto, como vemos em Freud. E a terceira seria pensar que a busca do prazer seria um caso especial de busca de objeto. Fairbairn diria que a busca de prazer, por exemplo, no caso da droga adição assinala um extravio da vocação objetal do homem.
Vejamos o que é possível afirmar acerca de Melanie Klein. Sem ter abandonado a ideia de busca de prazer e fuga da dor e do desprazer, a sua concepção acima descrita permite dizer que nos cenários da fantasia inconsciente são as relações de objeto que revelam a pulsão. Lá estão os objetos parciais, as primeiras identificações, os objetos bons e maus, as situações duais e triangulares, as angústias, os afetos desmedidos, as defesas, enfim... tudo que dá corpo e figura ao tumulto interno que nos habita, a nossos núcleos psicóticos, a tudo aquilo, enfim, que vai sendo por nós editado e significado, a partir do contato com o mundo externo. As pulsões são sempre pilotadas por identificações e se abrem para o mundo das relações de objeto. A noção de fantasia inconsciente permitiu ver que sempre há uma potencialidade psíquica no corpo, o corpo quer dizer algo e o corpo fala. O corpo nunca é algo apenas fisiológico e anatômico, fechado em si mesmo, mas se abre para o campo dos sentidos e da alteridade. Esta dialética não deve ser anulada, da mesma forma que as pulsões não podem ser apenas voltadas à descarga das excitações, mas são também buscadoras de objeto, pois em sua primordial tendência à descarga tiveram o encontro com o objeto que as desviou e que as formatou.
Klein e Ferenczi compreenderam que há sempre um fluxo de duas mãos do pulsional ao objetal que flui incessantemente em tudo que fazemos e dizemos. O fluxo só é interrompido quando o excesso traumático, o abandono e a onipotência fazem explodir nossos frágeis limites e quando tanto as pulsões quanto as relações de objeto silenciam ou são ruidosas demais.
Há uma frase de André Green (1986/1988) que podemos usar aqui:
“mesmo se formularmos as pulsões como entidades primeiras, fundamentais, isto é, originárias, deve-se, no entanto, admitir que o objeto é o revelador das pulsões. Ele não cria as pulsões, – e sem dúvida podemos dizer que é criado por elas, pelo menos em parte – mas é a condição do vir a existir das pulsões. E é através desta existência que ele mesmo será criado, ainda que já estando lá. É esta a explicação da ideia de Winnicott do encontrar-criar. (Green, 1986/1988, p. 64).
Considero-a a principal criadora das teorias de relação de objeto.
Em termos kleinianos podemos dizer que:
“mesmo se formularmos as pulsões como entidades primeiras, fundamentais, isto é, originárias, deve-se, no entanto, admitir que são os objetos da fantasia inconsciente que revelam as pulsões. Eles não criam as pulsões, – e sem dúvida podemos dizer que são, pelo menos em parte, criados pelas pulsões, – mas são esses objetos da fantasia inconsciente, os criadores do habitat natural onde vivem as pulsões e seus destinos. Eles são de natureza híbrida, heterogênea, são matéria psíquica bruta. Fazem a mediação entre interno e externo, corpo e psíquico, sensação e caminho de acesso à palavra. Lá vivem tanto os piores monstros que nos assombram e podem nos sufocar até a morte, quanto os objetos de amor que nos fazem viver, trabalhar e amar”. (Cintra, sonhando Klein e Green, 2018).

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